Rádio Viva Rio Realiza Audição Do CD De Lucas Santtana

Na última quinta-feira, 24 de julho, representantes de 30 rádios comunitárias do Rio de Janeiro participaram da audição do novo cd do cantor e compositor Lucas Santtana, realizada na sede do Viva Rio. “Parada de Lucas” é o segundo disco do artista e foi lançado pelo selo Diginóis, criado pelo próprio. Durante o evento os convidados ouviram e dançaram músicas como “Samba Cubano” e “Eu@.com.você”, e ainda assistiram ao clipe da música “Tática de Machine” – que mesmo tendo sido gravado com poucos recursos empolga pela criatividade.

“O clipe foi gravado com uma verba recorde de R$500,00. Fomos a uma dessas casas onde as pessoas vão para jogar videogame, juntamos uma galera e começamos a filmar. Usamos também cenas de um documentário sobre futebol, de João Moreira Salles”, conta Lucas, sempre sorridente.

Logo após a exibição do clipe, Lucas participou do programa MPBeleza, que vai ao ar às terças e quartas-feiras, das 20:00 às 21:00 horas, na Rádio Viva Rio (1180AM). Ele falou sobre a boa receptividade de seu trabalho no exterior - seu primeiro cd, “Eletro Ben Dodô” foi incluído pelo jornal The New York Times na lista dos dez melhores cd’s independentes do ano de 2000 , mostrou três faixas de seu novo trabalho e convocou os ouvintes para curtirem o programa Superestéreo, que vai ao ar todas as sextas-feiras, das 14:00 às 15:00 horas, também Rádio Viva Rio. Ele divide a produção e apresentação do programa com Plínio Profeta, um dos produtores de “Parada de Lucas” e co-autor de “Samba Cubano”, uma das melhores faixas do cd.

Ainda durante o evento, todos os presentes receberam do próprio Lucas o CD autografado e tiveram a oportunidade de entrevistá-lo. “Parada de Lucas” é inspirado na obra de Milton Santos, que escreveu entre outros títulos “Pobreza Urbana”, “Pensando o espaço do homem” e “Por uma outra globalização”.

Neste álbum, Lucas Santtana utiliza baterias eletrônicas, percussões afro-brasileiras e sintetizadores sarapas para descrever em suas letras ambientes onde a cultura popular faz, inconscientemente, falar mais alto o nosso território, manipulando sem medos, e de maneira divertida, as tecnologias disponíveis. “Parada de Lucas” é o primeiro disco do selo Diginóis, criado pelo próprio artista.

Lucas Santtana lançou seu primeiro CD “Eletro Ben Dodô”, produzido por Chico Neves e mixado no estúdio Realworld de Peter Gabriel, em 2000. O trabalho também recebeu críticas elogiosas no Brasil e em importantes publicações no mundo da música, como Village Voice, Downbeat e Chicago Tribune (EUA); Le Monde e Vibrations (França); Latino e Esquire (Japão).

Por Gabriel Versiani

A Paz Cantada Por Gabriel Versiani E Lenine

No evento “O Rio Canta a Paz”, realizado pelo Viva Rio em sua sede, no bairro da Glória, os músicos Lenine e Gabriel Versiani se apresentaram para um público de aproximadamente 150 pessoas. Apesar dos shows terem sido bastante diferentes um do outro, ambos agradaram o público presente.

Para abrir o evento, Gabriel Versiani cantou a música “A Paz”, de Gilberto Gil, com voz e violão. Uma música que tinha muito a ver com o momento (pouco tempo antes, todos ficaram sabendo da morte do produtor musical Almir Chediak). Logo em seguida entrou a banda de Gabriel Versiani, que tocou “Herói de Estrelas” de Jorge Mautner e Nelson Jacobina. A primeira música de sua autoria foi a ótima “Filho de Ogum”. Surpreendendo a galera, Gabriel foi tocando música após música, e seu estilo parecia uma MPB rica, com elementos de samba, funk, rock e alguns elementos de jazz. Dedicou “Piano na Mangueira”, de Tom Jobim e Chico Buarque, a seu pai, Cláudio Jorge, que estava presente no evento.

O grande momento do show foi quando tocou “Não falo pelo Samba”, uma de suas melhores músicas. Um samba bem quebrado que critica a banalização do samba e do carnaval nos últimos tempos. A música que fechou sua apresentação foi “Heloísa Maravilha”, um samba jazz nervoso, que em alguns momentos lembra João Bosco. Sua apresentação foi muito aplaudida.

O show de Lenine, que era com voz e violão, poderia ter continuado a pressão deixada pela música de Gabriel, mas preferiu acalmar o ambiente com músicas mais introspectivas. Lenine estava visivelmente cabisbaixo, pois Almir Chediak era seu amigo próximo. Mesmo assim agradou o público presente. Começou com músicas do seu primeiro CD (Olho de Peixe, 93), disco gravado em parceria com o percussionista Marcos Suzano. O clima do show era de rodinha de violão na praia. Ele estava bem à vontade. Na música “Sonhei”, ele chegou a esquecer a letra no início da música. Com seu bom humor habitual, olhou pra galera como se estivesse pedindo uma cola, até que alguém ajudou (“sinais de sim / céu de capim”). Com bom humor ele soltou um “do c…!” E seguiu com a música.

Na segunda metade do show, Lenine ficou mais animado e tocou as músicas mais aceleradas como “Dois Olhos Negros”, “Escrúpulo” e “Minha Metade”. Quando ele tocou seu sucesso “Hoje eu quero sair só” ele conquistou a galera de vez. Tocou “O Homem dos Olhos de Raio X”, “Rosebud” e “A Rede”, cada uma ia levantando mais o público. Até que ele chegou no auge de sua apresentação cantando “Jack Sou Brasileiro”, seguida de várias inserções de clássicos da nossa música como “Deixa isso pra lá”, famosa na voz de Jair Rodrigues, “Me Deixa”, d’O Rappa e “Ouro de Tolo”, de Raul Seixas. No meio dessas homenagens ainda coube sua música “Alzira e a Torre”. Já no bis, Lenine terminou com a música “Paciência”, uma música lenta, mas de enorme vibração.

Lenine

No evento que celebrava a paz reinou a boa música. Lenine e Gabriel Versiani tocaram músicas bem elaboradas, fazendo daquela noite um verdadeiro momento de paz. A renda obtida no evento será revertida para o Telecurso Comunidade, projeto do Viva Rio, que oferece ensino fundamental e médio para jovens de comunidades de baixa renda.

Por Marcelo Ceará
Fotos: Bruno Dorigatti

A Brasilidade E a Inventiva Do Trio Calafrio

Se dependesse das intenções dos grandes conglomerados que hoje ditam a regra no mercado mundial do entretenimento, a música popular brasileira seria, toda ela, igualzinha à de todo o mundo: o mesmo play-back, o mesmo romantismo infantil e sexualizado, as mesmas letras sem conteúdo. Música que faça parar, refletir, tirar conclusões? Neca de pitibinéris! Nem pensar!

Pois são essas intenções muito bem esquematizadas, num plano estratégico que visa à vampirização da melhor música do planeta para transformá-la num caldo só, insípido, inodoro e incolor; são essas estratégias que absorvem o discurso naturalmente agressivo do gueto mas calçando-lhe um reebok, um nike ou um mizuno desses aí, e jogam o samba pra escanteio - porque o samba gosta mesmo é de calça da “boca do linho”, no Campo de São Cristóvão; de pisante do Souza ou do Motinha; e “cobertura” da Chapelaria Porto, na Senador Pompeu.

Pois as corporations não são trouxas. E, do gueto, só absorvem o discurso que pode dar uma mãozinha nos seus negócios. Inclusive o da violência urbana e da guerra como um todo. O discurso que corrói por baixo e por dentro, mesmo, esse que os romanos já temiam, que ao mesmo tempo diverte, educa e destrói (o que não presta)… Esse não! Pelo amor de Dólar!
Num país em que as concessões de radiodifusão são feudos intocáveis, uma parabólica trazida pelo temporal, e que o malandro fincou no barraco na maior cara de pau, vale mais do que 500 projetos de lei sobre a democratização dos meios de comunicação. Da mesma forma que o “Samba do Jeton” instrui as discussões sobre a reforma previdenciária. E na mesma medida que a história da Mary Lou - que, com os cacarecos que ganhou das patroas bacanas, montou um antiquário - vale mais como dica de ascensão econômica do que qualquer manual do SEBRAE.

E, na hora que a barriga ronca? Fazer o quê? Meter bronca, claro! Mas sem apelar pra ignorância. E dando aula de criatividade. Pois criatividade (a ponto até de se comunicarem numa linguagem toda própria e pessoal) é o que não falta ao Trio Calafrio - cujo nome, aliás, nasceu da inventiva de outro brilhante filho da periferia: Zeca Pagodinho.

O motorista de táxi Luiz Grande, bamba da Imperatriz Leopoldinense, é um dos grandes estilistas do samba. Seu jeito peculiar de compor, com ênfase no sincopado, está presente em antológicas gravações do saudoso João Nogueira, como naquele suingado “por onde andará Maria Rita?” ainda nos anos 70. Já Barbeirinho (cujo apelido é mais que uma carteira do Ministério do Trabalho), letrista de rara inventiva, cavaquinista esperto e cria dos Unidos Jacarezinho, chegou depois mas chegou bonito, principalmente na voz de Zeca Pagodinho. E na lateral esquerda, Marcos Diniz, irmão de Mauro e filho de Monarco, de quem herdou a bela voz; e, como o pai, fazendo a ponte melódica entre o Jacarezinho e Osvaldo Cruz, de maneira tão poética quanto irônica e tão sarcástica quanto lírica.

Enfim, o que é preciso dizer é que botar o dedo na ferida, sacaneando, debochando do opressor e se possível passando a mão na bunda dele, incomoda muito mais do que latir na cara de quem tenta nos excluir e anular. E esse é o grande lance do Trio Calafrio. Que sabe fazer samba romântico também; e dançante, como, por exemplo, os gostosíssimos Pouco Importa a Tranca (um espontâneo samba-jazz!) e Mary Lu, vestidos para o baile pelo suingue e a sensibilidade dos grandes Leandro Braga e Itamar Assiere.

O íntegro Paulinho Albuquerque, amigo do samba e do sambista, que vai de New Orleans a Seropédica sem se perder, teve a clareza de se cercar de alguns dos melhores músicos da atualidade brasileira. Sem Berklee, sem Los Angeles, sem babaquice, desfilam por este disco timbres, sons e nuances rítmicas na medida. Como requer a brasilidade e a inventiva do Trio Calafrio.

Este é pois um disco ímpar. No qual as palavras-chave são: criatividade e identidade.

E aí eu me lembro que, noutro dia, numa entrevista sobre um grupo de rap caribenho que estão querendo transformar em bola da vez, um marqueteiro de gravadora disse: “Está difícil! Eles são muito latinos para o mercado do rap e muito rappers para o mercado da música latina!”.

Não é engraçado?

Por Ney Lopes

Teresa Cristina, Sambista Que Mira No Passado E Acerta O Futuro

Paulinho da Viola fez 60 anos no ano passado e recebeu algumas homenagens, como a publicação de dois livros sobre a sua obra e vida, um documentário que deve estrear este semestre e - a mais significativa delas - dois discos só com obras suas, gravados por Teresa Cristina e o Grupo Semente. Em sua estréia, a carioca de Realengo mostra muita coragem e acerta em cheio ao mergulhar no quase infinito repertório do sambista de alta classe que é Paulinho. Sambas de todos os momentos, o que em Paulinho da Viola significa muitos. Ele fez sua primeira gravação com o conjunto A Voz do Morro (Zé Kéti, Nescarzinho, Oscar Bigode, Zé Cruz, Elton Medeiros e Jair do Cavaquinho), lançando dois volumes do Roda de Samba em 1965, mesmo ano em que acompanhou Araci Cortes e Clementina de Jesus no espetáculo Rosa de Ouro. No ano seguinte lançava sua parceria com Elton Medeiros, Na Madrugada, e estrearia em disco solo em 1968. Na década seguinte, lançou dez álbuns e entrou para a história como um grande sambista que sempre reverenciou o samba e os mestres do passado como Cartola, Nelson Cavaquinho, Monarco e Casquinha - dos quais foi contemporâneo - e Paulo da Portela, fundador da sua escola de coração. Os anos 70 se deliciaram com os clássicos álbuns Foi um Rio que Passou em Minha Vida (1970), Paulinho da Viola (1971, aquele com uma mão segurando uma folha verde na capa), A Dança da Solidão (1972), Nervos de Aço (1973), Memórias Cantando e Memórias Chorando (1976), Paulinho da Viola (1978, com desenho do corpo de um violão). E tem ainda Eu Canto o Samba (1989) e o seu mais recente trabalho, Bebadosamba (1996).

Tudo isso para mostrar que a opção de se debruçar sobre a obra do sambista nunca é uma tarefa fácil. A decisão de estrear com um CD duplo, intitulado A Música de Paulinho da Viola (Deckdisc), portanto, foi uma das primeiras e acertadas decisões de Teresa e o grupo que a acompanha. No total, 28 faixas e 32 músicas com participações sublimes de Elton Medeiros - maior parceiro do mestre -, Conjunto Época de Ouro - onde César Faria, pai de Paulinho, toca violão - e Velha Guarda da Portela, além do próprio Paulinho. Outro acerto está no samba mais que fino executado por Ricardo Cotrim (surdo), Pedro Miranda (pandeiro), João Calado (cavaquinho), Bernardo Dantas (violão), o Grupo Semente. Semente, o bar ali na esquina da Rua Joaquim Silva com os Arcos da Lapa, local de noitadas de cerveja, choro e samba, onde velhos mestres dividem o pequeno espaço com jovens promissores na arte de sambar e chorar. Semente, onde Teresa começou e já cantou muito samba. E seu repertório, mesmo sem a presença do mestre que ora homenageia, não deixa nada a desejar às melhores rodas de samba dos tempos idos, com Zé da Zilda, Candeia, Elton Medeiros, Zé Kéti, Cartola, Geraldo Pereira, Nelson Cavaquinho e por aí vai. Do Semente, logo estava no Carioca da Gema (onde se apresenta toda sexta-feira) e no Centro Cultural Carioca (toda quinta). Os sábados antes dedicados ao Semente agora vêm sendo dedicados aos shows, como a apresentação no Teatro Rival, no último final de semana (02 e 03 de maio).

No teatro, talvez ainda pela falta de costume, Teresa estava um pouco nervosa, de movimentos contidos e dança tímida, o que não chega a tirar o brilho e a força de sua voz, tampouco a excelência do Grupo Semente, que contou nesta apresentação com a presença de Pedro Paz (clarinete), Marcos Esguleba (cuíca, percussão) e Paulinho do Pandeiro. Com um belo e longo vestido branco, agradeceu e falou da empreitada de sucesso que seu primeiro trabalho vem conseguindo. O repertório baseou-se no disco, com muito Paulinho, incluindo Choro negro, Coração vulgar, Jurar com lágrimas, Guardei minha viola, Coração imprudente, Pecado capital, Coisas do mundo e Minha nega. Cantou também Zé da Zilda, Se eu pudesse, e Acalanto, música dela, que lembra as rimas, estrofes e histórias de Paulinho. Mas o melhor de Teresa está nos bares onde ela já se sente em casa, se solta e deixa o couro comer.

Lapa. Em entrevista ao MPBeleza (Rádio Viva Rio 1180 AM, terça a sexta, 14h), Teresa fala sobre a Lapa. “O que a iniciativa privada poderia fazer pela Lapa acho que já fez e está fazendo. Acho que falta hoje um pouco de interesse do governo, não sei em que âmbito (municipal, estadual, federal); alguém olhar para a Lapa. Ela é um cartão-postal assim como o Pão de Açúcar, o Corcovado. Tem a história do samba misturada ali: Geraldo Pereira, Ciro Monteiro cantava no Dancin’ Eldorado (onde hoje funciona o CCC), que tinha como dançarina a Elizeth Cardoso, Pixinguinha se apresentou lá… E aí você vê esses pequenos empresários reformando essas casas, só que eu acho que na Lapa falta dar uma olhada nas ruas, falta segurança. Não acho legal os arcos com infiltração, descascando. É um cartão postal da cidade. Acho que não custava preservar o que é nosso também. Quando comecei a cantar na Lapa, minha mãe ficou apavorada — um local de meretrício, travestis — e a gente convive com tudo isso, aliás conheço quase todas da Rua do Lavradio”.

Sobre a ausência temporária do Semente, Teresa diz: “A Rua Joaquim Silva tem ficado difícil, pois todo mundo quer fazer música na rua e aí não tem respeito. É uma pena, pois dos lugares em que eu toco, é o que considero como se fosse um filho meu. Eu comecei a cantar lá. Antes de eu pensar que poderia ser cantora, o Semente foi uma prova de fogo e a gente conquistou o local, o público começou a ser criado ali, o repertório também. Acho até legal, a rua se transformou, hoje em dia você entra num bar tem um concerto de harpa, noutro lugar tem forró, reggae, rock n’ roll, blues. Só acho complicado quando esses sons se misturam e rola uma maçaroca de som que você não sabe o que está ouvindo. O que vale a pena no Semente é o clima do local. A dona não tem nada de empresária. A Regina é uma amiga das pessoas, bebe junto, tem um astral espetacular. Os garçons são todos amigos, é um clima diferente, como se fosse uma família. E eu tenho saudades disso. Tinha noite que a gente ficava lá até quatro horas da manhã. Um dia a gente deu uma limpeza no Semente e o seu Jonas fez uma rabada, a gente comeu rabada às cinco horas da manhã. As canjas, com pessoas que às vezes eu não esperava que fossem aparecer, como Beth Carvalho, Marisa Monte, Cristina, Surica, Seu Argemiro, Seu Jair do Cavaquinho, Serginho, Guaraci da Velha Guarda da Portela, Moacir Luz, Cláudio Jorge, Zé Renato. Essas pessoas iam aparecendo e essas canjas nunca foram programadas”.

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Samba na mídia. Vascaína, como Paulinho e Paulo da Portela - “sem ele nós não estaríamos aqui hoje”, comenta - Teresa cursa Letras na Uerj, mas ultimamente não tem conseguido freqüentar as aulas direito. Mesma Uerj onde já produziu e apresentou um programa de rádio, mas que não deu muito certo, segundo ela. Mas não se queixa da falta de espaço na mídia. “Acho injusto até às vezes ir para um jornal e falar que não tem espaço, vir aqui na rádio, onde fui convidada, e dizer que não tem espaço. O samba não tem espaço onde nunca teve, que é aquele espaço feito pra vender. Nas trilhas sonoras de novela, por exemplo, só vai entrar um samba se tiver na novela um personagem suburbano, uma família mais alegre que põe cadeira na rua, que tem uma mulher escandalosa que fala alto e usa rolinho na cabeça. O samba só entra nesse caso. E falo de novela porque é um veículo que vende tudo: a roupa que os artistas estão usando, os lugares onde está sendo filmada… Tudo aquilo é vendável desde o primeiro dia que aparece na tela, o penteado, a gíria etc”.

O documentário sobre Paulinho da Viola, Meu Tempo é Hoje, de Izabel Jaguaribe, deve estrear em circuito ainda neste primeiro semestre. O filme foi exibido no festival É Tudo Verdade, em abril, e compete como melhor longa-metragem no CineCeará, agora em maio. Teresa participou de algumas gravações. “Tiveram duas locações em que eu participei, uma no quintal da Surica, com a Velha Guarda e o Paulinho, e lá em Xerém, na casa do Zeca [Pagodinho]. Tem uma cena do documentário, onde a gente estava começando a cantar ‘antigamente era Paulo da Portela…’ e de repente surge a criatura no portão. Ninguém sabia, ele chegou na hora da música dele. Parou tudo, ficou todo mundo olhando Paulinho chegar”. Teresa comenta também sobre a reclusão a que se submete o sambista, entretido com a marcenaria e os carros antigos, longe dos palcos: “A gente pede ‘não faça isso com a gente, Paulinho’, mas ele é muito preguiçoso. Estive nos shows de 60 anos dele, ano passado, maravilhosos.”

No segundo CD, já a caminho, Teresa pensa em algo mais autoral, músicas próprias e coerência com o que tem cantado, como Cartola, Wilson Moreira, Zé da Zilda. “Faço minhas músicas sozinha, melodia e letra, e tenho dificuldades em musicar a melodia dos outros”, afirma. Começa a perder o medo e, com uma melodia de Argemiro, deu origem à primeira parceria, A vida me fez assim: “Lá do alto a cachoeira / Vem descendo a ribanceira / um roncar que não tem fim / Curso d’água que me guia / Canto a dor e alegria / A vida me fez assim / Pode me faltar dinheiro / Que eu trabalho o ano inteiro / Pra poder recuperar / Mas nunca me falte flores / para agradecer amores / Que Oxum vive a me dar / Mas nunca me falte flores / para agradecer amores / Que Oxum vive a me dar / Lá do alto a cachoeira…”. Teresa é a continuação natural de um samba que se mostra mais e mais revigorado, samba que reverencia e bebe na fonte dos mestres do passado para fazer bonito e não dever nada a ninguém. Aos que duvidavam, o samba respira aliviado. Amém, Teresa.

Texto: Bruno Dorigatti
Fotos: Marcelo Ceará e Clarissa P. Moraes

Primeiro DVD De Luiz Melodia É Lançado No Rival BR

Um dos grandes nomes da nossa música popular, Luiz Melodia lançou seu primeiro DVD, intitulado “Luiz Melodia Convida”, com participações de nomes como Zeca Pagodinho, Luciana Mello e Gal Costa. O lançamento foi no Teatro Rival BR, onde Melodia já fez história com seu disco “Acústico Ao Vivo”, que rendeu ao artista o seu primeiro disco de ouro.

O início da apresentação foi com a banda completa, que contava com Renato Piau (violão e guitarra), que é parceiro de Melodia em canções como “Cara a Cara”, Aluízio (baixo), Élcio (bateria e pandeiro) e Jorjão nos teclados, que sabia fazer a diferença em um palco recheado de grandes músicos.

Depois da primeira parte do show, Luiz Melodia partiu para o formato acústico, que lhe rendera seu primeiro disco de ouro. E como deu certo da primeira vez, agora foi como um complemento do disco. Melodia entoou o violão e, junto com Renato Piau, lascou vários clássicos da MPB. A clássica “Congênito”, de seu segundo disco, ganhou um formato mais caseiro na forma que o compositor tocou. O cantor emocionou o público quando lembrou o genial Nelson Cavaquinho, com a música “Palhaço”. Além de outras grandes canções.

Na terceira parte, a banda voltou em grande estilo tocando a música que Luiz fez para Cássia Eller colocar em seu disco “Com você meu mundo ficaria completo”, chamada “Esse filme eu já vi”. Ao terminar a música, cada um da banda resolveu solar, e a música virou uma grande “jam session”, fazendo lembrar os bons tempos do jazz. Em seguida, Luiz Melodia cantou seus grandes sucessos “Pérola Negra”, “Cara a Cara” e “Magrelinha”. Interessante foi a inserção do hino nacional no final da música “Magrelinha”, que contém os versos (no coração do Brasil / no coração do Brasil). A essa hora o público já estava em delírio com a apresentação de Melodia. Além dele dançar e fazer caras e bocas para a galera, ele cantou um clássico da Jovem Guarda, “O Caderninho”, levando ao delírio aqueles que viveram naquela época e os mais jovens que apreciam a Jovem Guarda. Luiz Melodia finalizou com a música “Quizumba”, que no DVD conta com a participação de Luciana Mello.

O bis foi inevitável, todo mundo aplaudindo de pé o cantor, que voltou cantando a música que parece que foi feita especialmente para ele, “Negro Gato”, de Getúlio Cortes. Essa música parece que é uma marca registrada para o cantor. Luiz Melodia fechou em alto estilo a sua apresentação no Teatro Rival BR, lotando o local e emocionando todos os admiradores de sua grande obra. Quando tiver no letreiro “Luiz Melodia”, não hesite, o show vai ser memorável.

Texto: Marcelo Ceará
Fotos: Clarissa Pivetta e Bruno Dorigatti

Nação Zumbi Pesa Uma Tonelada

Ao contrário do que muita gente pensa, a Nação Zumbi não enfraqueceu seu som depois do desfalque de Chico Science, morto precocemente no ano de 1997. A banda está cada vez mais madura em relação à postura de palco e, musicalmente, mantém o nível de suavidade e peso que consagraram os meninos de Recife. No dia 25 de abril de 2003, sexta-feira, no Canecão, eles apresentaram um show que há muito tempo não faziam no Rio. O lugar encheu de pessoas interessadas em ouvir música boa e dançar ao som dos tambores da Nação.

Na abertura, o integrante do Planet Hemp, B Negão, que está para lançar um novo CD solo, tocou algumas de suas composições, dentre elas, “Prioridades”, música que faz parte da coletânea “Marcelo D2 apresenta Hip Hop Rio”. O show fez lembrar os bons momentos do funk. Não aquele que ficou popular no Brasil no final do século, mas aquele que reinava nos anos 70, quando, no Brasil, Banda Black Rio fazia as festas pela periferia da cidade, e, no mundo, George Clinton influenciava a garotada com o “psicodelic funk”.

O show de abertura terminou e deu lugar à expectativa. Para os fãs, o último disco da Nação Zumbi (Nação Zumbi, 2002, Trama) é um dos melhores de sua carreira, senão o melhor. Eles entraram no palco tocando uma música deste disco intitulada “Mormaço”, música de refrão pesado. Depois relembraram seu penúltimo disco “Rádio S.Amb.A” com as duas músicas mais populares, “Arrancando as tripas” e “Quando a maré encher”. A última, por sinal, levantou a galera, pois foi gravada pela cantora Cássia Eller em seu disco de maior sucesso de vendas, o “Acústico MTV”. Em seguida, emplacaram “Propaganda” e “Macô”, primeira do show que relembrava Chico Science.

A apresentação começa a esquentar no decorrer do show. Eles realmente entraram um pouco frios, mas quando tocaram “Blunt of Judah”, música que abre o último disco, já estavam com o público sob o controle da força dos tambores e dos timbres da guitarra.

Na maior parte do tempo, Jorge Du Peixe é o principal vocalista, mas o percussionista Gilmar Bola 8, o guitarrista Lúcio Maia e Toca Ogan, outro percussionista, também têm seus momentos na voz solo. A música que Toca Ogan cantou foi uma mistura psicodélica de maracatu com drum n’ bass. Perguntei a alguns espectadores sobre o que parecia ser os efeitos da guitarra de Lúcio Maia e eles responderam que os efeitos eram espaciais. Como se naves estivessem em cima do Canecão. Interessante…

“Rios, pontes e overdrives”, música do primeiro disco da banda (Da lama ao caos, 1992), foi tocada em forma de baião. Podia perceber-se que no meio da batida do tambor, havia pequenas quebradas no ritmo, que assemelhava-se à música eletrônica. A música ainda contou com a primeira participação especial da noite, Gustavo Black Alien, ex-integrante do Planet Hemp. Aí o “free style”, a arte da improvisação no rap, estava liberado para Gustavo mostrar suas habilidades.

Depois de “Banditismo por uma questão de classe” e “Um satélite na cabeça”, duas clássicas dos anos 90, entra a música “Amnesia express”, também do último disco, cantada em inglês e cheia de efeitos eletrônicos.

Pausa. Hora de entrar mais um convidado: Marcelo Yuka. Entra e faz discurso contra a injustiça social e os meios de comunicação. “Nem sempre o que toca nas rádios é o que merece ser ouvido”, diz Yuka. Concordamos.

Logo depois, o último sucesso radiofônico da banda, “Meu maracatu pesa uma tonelada”, levantou de novo o público presente. À essa hora o show já estava conquistado. Todos estavam no auge de sua felicidade musical acompanhando uma das melhores bandas de rock do Brasil.

A terceira participação especial era de um conterrâneo da Nação Zumbi: Otto. Ele cantou a música “Da lama ao caos”, que é um heavy metal misturado com embolada. É tão pesada, que cabe até uma incidental do Sepultura, “Refuse/Resist”. No meio dessa festa toda entra MarceloD2 de surpresa para continuar cantando a música. Na verdade ele entrou antes do combinado. D2 canta também “Manguetown”, com certeza o maior sucesso da banda. Todo mundo delirando e o show termina com ela. Claro que não. O bis se tornou uma instituição no Brasil e no mundo. Aposto com o pessoal em volta. No bis eles sempre tocam a “música de trabalho” de novo.

Tudo como manda o script, eles voltam e tocam “Maracatu de tiro certeiro”, música quase esquecida do primeiro disco. “Meu maracatu pesa uma tonelada” obviamente tocou de novo e firmou mais na cabeça daqueles que ainda não estavam entregues à Nação. Mas para fechar em grande estilo, tocaram outro clássico “Salustiano Song (Afrociberdelia)”, um baião guiado pela guitarra de Lúcio Maia, que também canta a música (cascos, caos, cascos, caos). Marcelo Yuka volta ao palco durante a música e toca em um sintetizador fazendo sons pirotécnicos (se é que pode se denominar um som como pirotécnico). As luzes se apagam, o ruído fica e mais um show da Nação Zumbi termina.

Texto: Marcelo Ceará
Fotos: Gabriel Versiani

Sábado, 12 De Abril

10:00 - Comunidade Viva

O programa Comunidade Viva deste sábado fará um debate sobre a prostituição infantil, que é um grande problema no estado do Rio de Janeiro. Saiba o que as autoridades estão fazendo para combater os exploradores de menores. O programa vai ao ar todos os sábados, de 10h às 11h30, com Iara Cruz.

Afroreggae Lança Site Em Evento Na Fundição Progresso

Dando continuidade à comemoração de 10 anos do Grupo Cultural Afroreggae, foi lançado na última quinta-feira, dia 21 de fevereiro, o site www.afroreggae.org.br, criado pela equipe de informática do Viva Rio. A festa aconteceu na rádio Fundissom, dentro da Fundição Progresso, na Lapa. O evento contou com a participação do Afro Lata, roda de break com os gêmeos Faísca e Fumaça e integrantes da Gangue de Break Consciente da Rocinha (GBCR), além de um telão onde era possível conhecer o site. A banda Afonjah fechou a noite com muito reggae e maracatu.
Afro Lata

O grupo Afro Lata abriu a noite com os garotos soltando peso e suingue nos mais variados tipos de tambores. A garotada conseguiu empolgar a galera presente no evento. Nos intervalos, as pick-ups ficaram nas mãos dos DJ’s Marcelinho da Lua, Negralha e Teco Rastafari. No momento em que o DJ Negralha estava no comando do som, os gêmeos Faísca e Fumaça, junto com alguns integrantes do GBCR, abriram uma roda de break que fez a galera vibrar com seus saltos e acrobacias, sempre ao som de muito Hip Hop.
Afro Jah2

Para fechar a noite em grande estilo, a banda Afonjah fez uma apresentação empolgante para o público presente. A banda contava com grandes músicos participando do show. Um deles foi Tonho Gebara, ex-guitarrista da banda Baia e Rockboys e atualmente do Natiruts, que deu um verdadeiro show na hora do solo. Foi nesta hora que o vocalista Valdi Afonjah deixou o palco para dançar com a galera. Aí a brincadeira tomou conta e Jairo Cliff, baixista do Afroreggae, pegou o microfone fez uma improvisação que lembrava os grandes momentos do ragga.
Afro Jah3

Entre no site e conheça um pouco mais desta grande ONG: www.afroreggae.org.br

texto: Marcelo Ceará
fotos: Gabriel Versiani

Jorge Ben Jor Volta Aos Palcos Cariocas

O mestre do samba-rock está de volta com a sua trupe ao Rio de Janeiro para o evento Fundição Balanço, que acontece no dia 12 de abril na Fundição Progresso. Neste show Ben Jor dá uma parada com o Acústico MTV e volta a plugar os instrumentos. Acompanhado pela Banda do Zé Pretinho, promete fazer todo mundo dançar ao som dos seus maiores sucessos, como “Os alquimistas estão chegando”, do álbum A Tábua de Esmeralda, “Mas que Nada”, “Por Causa de Você” e “Chove Chuva”, do clássico álbum Samba Esquema Novo.

A abertura do evento fica por conta de Rogê, músico da nova geração do samba-rock aqui no Rio. Bebendo da fonte de músicos como Cassiano, Tim Maia e Jair Rodrigues, Rogê foi um dos destaques desse verão, lotando shows na Marina da Glória. Na Pista dois, apresentação do Delírio Live Act, atacando de Psy Trance, com muita percussão, guitarras e bases eletrônicas. Durantes os intervalos o DJ André da Lagoa vai manter a galera no clima com muita MPB. E para finalizar, na pista três, o DJ Xeleléo mostra como é que se dança o baião tocando forró do início ao fim.

por Rodrigo Nogueira

Fundição Balanço
Sábado, 12 de abril, a partir das 22h
Fundição Progresso: Rua dos Arcos, s/n - Lapa.
Ingressos:
R$ 15,00 - antecipado nas lojas Armadillo
R$ 18,00 - com flyer até meia noite
R$ 20,00 - normal

Instituto Traz Sua Coleção Nacional Para O Rio

O Instituto - núcleo de produção que reúne multi-instrumentistas, engenheiros de som, produtores, DJs, artistas gráficos, além de convidados que figuram no melhor do nosso pop rock de hoje - ao vivo é uma experiência diferente do trabalho de estúdio, mas igualmente feliz em unir hip hop com samba, dub, jazz, coco, beats eletrônicos, groove, samples, baixos poderosíssimos e flautas idem. Nos dias 24 e 25 de março eles passaram aqui pelo Rio para divulgar o seu primeiro trabalho e homenagear o finado Sabotage, rapper morto há um mês em São Paulo e que participa do CD Coleção Nacional, com “a melhor fusão de rap com samba que já se teve notícia”, nas próprias palavras da galera do núcleo, “Dama Tereza”. Coleção Nacional saiu no final do ano passado e está entre os melhores de 2002 junto com o CD novo da Nação Zumbi.

Rica Amabis, responsável pelas primeiras fusões de música eletrônica com samba em Sambadelic, Tejo Damasceno e Daniel Ganja Man (engenheiros de som, produtores, instrumentistas), e ainda Rodrigo Silveira e Márcio Simch (arte gráfica), junto com Sabotage, Rappin’ Hood, Nação Zumbi, Fred 04, Bonsucesso Samba Clube, BNegão, Otto, Z’África Brasil, Zé Gonzáles e Cila do Coco, Flu, Traidores da Babilônia, Kid Koala, Daniel Bozio, Lucas Moreira e Mauríco Takara mostram o (melhor) caminho para o futuro da música brasileira.

No palco do Teatro Rival, o núcleo central mandou muito groove, flauta, sax e teclados, além da cozinha de percussão e bateria, numa levada onde o hip hop se fez onipresente e embalou almas e corações. Para completar, o melhor do freestyle carioca mandou ver nas rimas certeiras, improvisadas ou não, de BNegão, Marcelo D2 (que também improvisou nos teclados com Ganja Man), o incrivelmente criativo nas rimas improvisadas e ligeiras Marechal (representando Niterói), entre outros MCs, e Otto, que cantou e tocou percussão. O mérito dessa rapaziada toda está na lapidada que o hip hop vem sofrendo, saindo da batida seca e letras monotemáticas do tipo “soupretopobrefudidofodaseosistemaeapolícia”, e absorvendo as nuanças dos beats e grooves, mas também do samba de Cartola, do coco de Dona Cila, do dub dos mestres jamaicanos de Mad Professor e Lee Perry, do jazz-funk da banda Black Rio. Está também na concepção de criação do núcleo, algo que surgiu simultaneamente aqui (com o Mamelo Sound System) e lá fora (com o projeto Handsome Boy Modelling School).

O público não era dos maiores na segunda, mas assistia atenciosamente a sonoridade que indica onde está o caminho. Ainda pouco conhecido nesse país que preza pelos enlatados e descartáveis produtos que emanam sobretudo da televisão, o Instituto com certeza veio pra transformar o cenário. O CD é independente, com distribuição da YBrazil e no www.seloinstituto.com você encontra mais novidades. Boa viagem.

texto e fotos: Bruno Dorigatti